Chocolate com Pimenta
Com o tempo você aprende que as coisas geralmente estão onde não foram postas. E que não há uma explicação muito lógica para isso: nem segundo a ciência, nem pela fé e muito menos como conta a história; ainda que a da versão oculta. Aí você aprende a simplesmente olhar por outro ângulo, a aguçar mais o olfato do que o raciocínio.
Descobre que as regras só são realmente entendidas quando podem ser transgredidas, e que, surpreendemente, algumas regras são boas, se chamam costumes e trazem boas memórias, ainda que antropológicas. Percebe o valor das coisas não mensuráveis e sente inveja da espontaneidade, que, sem valor de mercado, não se encontra nas megastores.
Com o tempo muita coisa muda, principalmente você, que ainda sem tempo, descobre que só se é, quando é si mesmo. Aí você tira os sapatos, anda descalço, porque o chão tem perigos, mas também tem nuanças de textura e temperatura. E permite-se ficar em silêncio, mesmo que o mundo lhe queira um ser sociável, por natureza. Ou olhar o feio e sujo com mais atenção, porque de isso e de outro, todos temos um pouco.
É como reaprender as velhas coisas de um novo jeito. Aí você descobre que sempre há uma criança dentro de você, e volta a essa sensibilidade livre e inocente, muito apreciada, mas pouco incorporada.
E quando vê que todas as coisas são novas, você se permite prová-las sem restrição. E descobre que sempre há um novo no beijo de um amor de sempre, e que nem a nestlé faz um chocolate igual ao outro.
É como brincar de andar de bicicleta sem ter medo de cair. E se a lei do equilíbrio se fizer presente, é fazer da queda não (necessariamente) um aprendizado, mas um respeito às coisas que não podem/devem ser mudadas.
A liberdade é um querer fascinante, mas sim, há coisas que não devem ser mudadas. As flores devem sempre serem coloridas, a água limpa e as estações devem estar de acordo. Não porque assim queiramos, mas, simplesmente, porque o respeito à vida é condição de existência. Para todo o resto, as páginas em branco da história.
Escrito por Carol Lopes às 02h01
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