No país do futebol não sou torcedora
No país do futebol não acompanho, não torço, não vibro, não comemoro, não choro. Sou uma descamisada do esporte nacional. Lágrimas só na Copa de 2002. Não pelos 11 jogadores, mas, essencialmente, pela camisa verde-e-amarela.
Pela costumeira posição derradeira em índices de qualidade e vitórias no quesito desgraça nacional;
Pelo filho colonizado que ainda não rompeu o cordão umbilical;
Pela cultura primária, que, ainda que linda, é o máximo que se consegue atingir com uma parca alimentação educacional;
Pela dificuldade de incorporar que nossa identidade não é ausência, mas presença de todas;
Pela elegância londrina dos ternos fechados no calor equatorial;
Pela grande festa negra que reserva hoje alas para seus senhores brancos;
Pelo solene aperto de mãos do operário acidentado com o mais azul dos sangues europeus, que lhes confere o direito de culpar um filho nosso de assassinato pelo fato de ser da cor da mestiçagem.

Escrito por Carol Lopes às 10h23
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