“Remédios descartáveis para vidas descartáveis”

Embora O Jardineiro Fiel, filme de Fernando Meirelles em cartaz nos cinemas, tenha sido dirigido por um brasileiro, sua plástica é toda norte-americana. O mocinho aparece no cartaz sujo, despenteado, em meio à uma paisagem hostil. Se não tivesse visto com meus próprios olhos a personagem no desenrolar da trama - complexo, humano, intenso sem escândalo - diria que acaba de ser lançado mais um filme de aventura da indústria cinematográfica. Não claro, sem uma boa história de amor.
Meirelles, inteligentemente, brincou com o público consumidor de imagens industriais. Apropriou-se da linguagem e da forma a que estamos mais familiarizados e fez um filme de conteúdo. E foi ainda mais além: de conteúdo subversivo. Atrativos não faltam Para os amantes das aventuras norte-americanas. Tem perseguição, tem arma, tem crime, tem suspense – e muito -, tem bandidos e mocinhos – não tão estigmatizados-, tem explosões, invasões, guerras. Tem até um protagonista engomado que vai perdendo a linha de sua cara vestimenta à medida que vai se revelando um fiel amante e um bravo guerreiro.
Essa foi a sacada de Meirelles. Agradar os olhos humanos para introduzir um tema indigesto: vidas humanas reféns dos interesses econômicos da indústria farmacêutica. A mensagem do filme é clara: não há limites no mundo dos negócios. Faz parte do jogo assassinar uma idealista que desafie a máfia da saúde. Pessoas que já estão à beira da morte, como os empestados “aidéticos” africanos, são testados como cobaias, sem se próprio conhecimento, com uma nova droga a ser lançada no mercado. E morrem por isso, indiscriminadamente. “Remédios descartáveis para vidas descartáveis”, traduziu um diálogo do filme.
Mas a grande sacada de Meirelles é, por outro lado, o seu calcanhar de Aquiles. Embora os temas, as situações, e quiçá os agentes da trama, sejam bastante reais, a história retratada em O jardineiro fiel é tão absurda diante nossas confortáveis cadeiras, que deixa os telespectadores com a sensação de ser esta realidade somente uma pintura cinematográfica. Como se apagadas as luzes da sessão estivéssemos todos livres dos donos do poder, e de nossas frágeis vidas.
Escrito por Carol Lopes às 17h20
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