Rio 40 graus
A princípio tudo era indiferença. Até que veio a notícia: estávamos classificadas para o Expecom. Categoria: telejornal. Nosso filho: Telepoemas. Quem é ele? É aquele que veio dar sentido em nossas vidas. Minha, Fernanda, Mariana e Carol. Um milagre da vida. Conseguiu, com um nascimento espontâneo e sutil, fazer renascer nossos sonhos chacinados pela vida. Seu brilho essencial: poesia.
Muito empecilho para atravessar os mais de 400 quilômetros que separam as distintas cidades, Rio – SP. Mas o cosmos estava a nosso favor. Percebemos isso desde o princípio. Acidentes aconteceram. Perdemos nosso meio de transporte coletivo em poucos dias. Mas isso não tirou-nos em momento algum a liberdade de trânsito. Movimentamo-nos o suficiente para sentir, de leve, o tom de alguns bairros.
A chegada foi impactante. Quase não acreditávamos em tamanha beleza. Eu pensava: é esse Rio mesmo que tenho registrado na minha cabeça como um lugar feio e chato? Mari se deslumbrou. Eu lembrei da poética. Minha principal companheira de viagem. Registros fotográficos não houveram. Infelizmente. Mas a marca que eu voltei dessa viagem não há tempo que apague.
As coisas simplesmente iam acontecendo. Uma fluidez só. A prima adorável da Carol, a aula de Rio que recebemos de largada, só fazia aumentar nossa admiração pela cidade maravilhosa. Aos poucos fui percebendo também que, além de ter uma belíssima vegetação, as raízes históricas da cidade pulsam. As ruas, as construções, os costumes. Tudo remetia a um passado das aulas de história mal dadas do colégio. Agora elas ganharam vida, importância, identidade.
Em pouco tempo me senti em casa. A destreza com que aprendi a andar no caos urbano me chama a atenção. Começo a me sentir uma conterrânea. Imediatamente penso que, falando de Brasil, nada pode ser tão perfeito. Cadê a outra realidade da cidade? Vou buscar. Observatório de Favelas. Entrada da Maré. 120 mil pessoas. O tamanho, por si só já me choca. Mas mais chocante foi ouvir, em dados, a realidade dessas pessoas. Lá elas morrem como insetos da lâmpada. Um simples tapão. Sem estardalhaço.
A sensação é de que a pintura dolorida que até então eu tivera daquela vida era muito mais do que uma simples ilusão da ótica. Sim. Lá as pessoas morrem como bichos, os lideres das favelas guerreiam, os bailes funks são fechados e pros “manos”, a praia é pros gringos, o tráfico manda na cidade, mas a cidade não reconhece sua autoridade. Tudo se resume em espaços “bem freqüentados” ou “mal freqüentados”. Daí você já entende quem é quem por lá. Onde mora, quanto ganha no fim do mês. O trânsito é caótico e nervoso como o de SP. Com um agravante: a zona reina. Organização não é o forte dos cariocas. A malandragem e a lei da selva falam mais alto.
Como um turista se vira em meio a isso tudo? Não sei. O que sei é que respirei todos os ares que pude daquela cidade. Brinquei de camaleão e puxei todos os “esses” que pude. Não fui reconhecida como carioca, mas tirei boas risadas e simpatia dos nativos. Chegando lá, logo na primeira parada, deixei de lado meu velho e cansado escudo. Falei com todo mundo que se aproximou como se também falasse “carioques”. O brutamontes do guarda me chama de coração enquanto explica o melhor caminho para eu atravessar a cidade. Sim, os cariocas são infinitamente mais simpáticos que os paulistanos. Confesso, com gosto. Já não me reconheço paulistana.
A praia sempre próxima é como um amigo permanente. Nela você deposita angústias, alegrias, confissões, divide momentos, sente-se purificado. Cheiro de mar o Rio já perdeu. Talvez seja a poluição que se mistura com a brisa. Mas o som das ondas batendo, levando e trazendo, já vale tudo.

Escrito por Carol Lopes às 00h15
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