Marcas
Não me lembro a primeira vez que senti dor na vida. Mas deve ter sido algo assustador. A mãe dizendo: vai passar filhinha. E aquela coisa que não se tem controle, que te surpreende de súbito, dominando seu corpo todo. Parece que é para todo o sempre. Um desespero só. Mas a verdade é que passava.
A cicatriz eu já me lembro. Em minhas quedas constantes achava que todas aquelas marcas sumiriam com o tempo. Ledo engano. Algumas não se foram. Mudaram de lugar, deram uma volta no meu corpo, que espichou, engrossou; mas não deixaram de ser as mesmas velhas marcas.
Mais tarde, mais desconfiada das marcas que não vão embora, tornei-me mais cautelosa. Não me lembro de ter caído mais. Tampouco adquirido novas marcas.
Foi quando surgiu uma nova modalidade de marcas (é incrível como a gente é capaz de refinar os mesmo antigos processos). As marcas de amor. De novo o corpo era tomado por uma dor aterrorizadora. Eu já sabia o que era dor. Mas essa me assustou bem mais. Meus olhos não alcançavam a ferida exposta.
Gozado é que ninguém nunca mais se atreveu a me dizer que as marcas sumiriam com o tempo. No máximo que seriam amenizadas. Coisa daquele mesmo velho costume do tapinha na bunda da criança para distraí-la do desespero em que é tomada ao entrar em contato com a dor.
Aprendi que machucado de “gente grande” é só com marcas. O corpo imaculado, nunca mais.
Acabo de me lembrar de uma preciosidade dos adoráveis publicitários: “Omo, porque não há aprendizado sem manchas”.