O livro dos abraços
Acordei numa manhã fria e chuvosa. O dia custou a passar. Chego em casa ansiosa. Um almoço caseiro me espera. A fome entorpece. Delicio-me com o saboroso tempero do abraço maternal. Vinho deixa o riso fluir. Sorrio mais leve. Pavarotti canta ao fundo. Eu brinco de vitrola quebrada (sempre canto assim quando estou feliz) enquanto ajeito pela primeira vez a cozinha de casa, sem a ordem da Mãe. Sorrio alegre. Felicidade sem presentes.
A cozinha está limpa. Eu também. Essa tarde, que já aponta alguns raios de sol, não terá broncas ou discordâncias. Não dessa vez. O mais alto som que posso ouvir é desse soprano que aprendi a gostar por conta da Rosa que me diz: “você não sabe o que é viver meio século”, depois de seu sagrado cálice de vinho e confissões manifestas.
Finalizada a tarefa me dirijo ao pacote que a flor deixara no chão. Não havia dado-lhe muita atenção. Havia dois. Um para mim, outro para meu pai. Entendi errado. O plástico comercial era dele. O meu era o envelope escrito à mão. Sorrio de curiosidade. Antes de tocá-lo procuro o remetente. Rasgo-o imediatamente, ávida pelo conteúdo.
Surpresa com sensação de dejavú. Amizade sincrônica. Carinho espontâneo. Entendimento silencioso. Lágrimas e lágrimas de emoção. Um livro. Lágrimas. Do Galeano. Lágrimas. Sobre abraços. Lágrimas. Para mim? Lágrimas...
Abro a coisa sacro-santa. Um postal, dois, três, quantos lugares, quanta vida, quanta cor, quanta sensibilidade. Todos eles escritos. Uns escritos para mim, outros escritos para o escritor. O mundo cabe num segundo. Um segundo cabe o mundo em mim. Entre os postais um deles me prende. Fixo os olhos. O primeiro, o com vida, o com crianças, esperança, renascimento. Meu e do escritor. E das crianças, que nos faz renascer.
Risos molhados. Do baú de ouro quinquilharias desprezíveis. Da pedra lascada o ouro reluzente. Enquanto cuido do jardim dos outros meu jardim recebe a visita de borboletas azuis. Terei eu aparado ele esses dias?
Lembro de uma conversa recente em que me indagaram o que era presente. Presente? Presente é tudo aquilo que significa e que agrada. Ganhei um monte de significados nessa tarde. Discos arranham e quebram com o tempo. Amor, Carolina.
A PEQUENA MORTE
Não nos provoca o riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mias profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por juntarmo-nos, e perdendo-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce.
Eduardo Galeano
Livro dos abraços
Primeiro texto que li na página sorteada.
Escrito por Carol Lopes às 13h57
[]
[envie esta mensagem]
|