Produtividade
Tive uma semana produtiva:
- chorei só
- chorei acompanhada
- cantei em voz alta Como nossos pais no meio da Dr. Arnaldo
- falei com uma pá de pessoas queridas
- com uma amiga de infância
- não trabalhei direito
- não fui à aula
- me indignei com os velhos problemas do mundo
- não cumpri horários
- bebi cerveja com meu pai
- almocei com amigos
- caminhei religiosamente em ótima companhia
- fui compreendia à distância por quem de perto outrora não me compreendera
- escrevi uma crônica sem dor
- comprei 2 CDs da Elis e um duplo do Caetano
- sorri, só e feliz de alma, com a poesia de Mário Quintana
Escrito por Carol Lopes às 23h26
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Matemática humana
Carolina Lopes
Parecia um simples exercício de principiantes de foca. E era. Abordar, entrevistar, registrar, editar e reproduzir. Matemático como as aulas do colegial. Mercúria achou o número dez suficiente. “Dez, precisamos de dez entrevistas”. A perfeição do número incomodou Inconstância. “Mas, porque dez?”. E, para a velha perturbação da garota, vem a resposta de Mercúria: - “porque dez é um número bom”. Riram todas. Inconstância nunca foi dada à aleatoriedade. Tampouco para números jogados, que, ordenados de forma cabalística, resultavam em contas exatas. Mas mantinha por eles certa admiração e respeito.
Haviam chegado há pouco no corredor de ônibus Consolação-Rebouças. Uma segurava a filmadora, a outra o tripé, a outra observava o local e a outra ficara para traz, mas já estava chegando no próximo ônibus. Nunca tinham feito isso juntas, mas, de uma forma também enigmática, do caos daquela equipe se fez uma auto-organização espontânea. Inconstância tinha facilidade parar trazer os candidatos à entrevista. Semalícia tinha habilidade em manusear o equipamento e aproveitava o tempo vago para pescar boas cobaias para Inconstância abordar e Deslumbrada entrevistar. Deslumbrada tinha concentração para conduzir o entrevistado. Mercúria sabia como ninguém fazer o meio de campo. Da aleatoriedade fez-se a divisão mais perfeita das tarefas.
Mas a lógica matemática sucumbiu na primeira abordagem de Inconstância. “O senhor usa bilhete único?”. “sim”. “Poderia nos conceder uma entrevista breve de apenas duas perguntinhas?”. “Melhor não minha filha, não estou bem. Aliás, é melhor nem falar nada, hoje não é um bom dia e ...”. E antes que a senhora delatasse o problema que a afligia, Inconstância escapa. Sabia que se parasse para ouvir a dor da desconhecida não cumpriria seu papel de foca. A instabilidade do ser humano costumeiramente lhe chamava mais a atenção do que as respostas precisas que momentaneamente procurava.
Algumas entrevistas já em andamento e mais um “caso”. “Ah fia, melhor não, hoje eu não to legal”. Respira fundo, pensa, para. Será esse um recurso comum utilizado pelas pessoas para se livrarem das câmeras ou estarão mais aflitas do que pudera perturbadamente até hoje notar. Continua. A missão de foca prevalece. Seu faro conquista mais alguns voluntários para as etapas do trabalho das outras aprendizes. “Tem que ser mulher. Temos quatro homens e três mulheres” anuncia Mercúria.
Escrito por Carol Lopes às 22h15
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continuação...
Mais uma vez a perfeição dos números equilibrados. Inconstância avista uma senhora ao fundo. A única sentada, quietinha, recolhida em sua roupa aquecida do dia frio. Julgou que seria uma boa candidata, já que a senhora não trazia o habitual semblante do estress da metrópole. “Oi, por favor. A senhora usa bilhete único?”. “Não, meu bilhete é diferente”. Tudo que Inconstância precisava era de usuários do transporte público da capital. A miúda senhora não se encaixava na pauta. Pauta? Que pauta? “Mas, como é o seu bilhete?”. “Eu tenho síndrome do pânico”.
A quase foquinha se surpreende. Questiona-se se a doença do pânico, aquela a que tem ouvido com certa freqüência, já é considerada uma patologia mental, podendo assim ser incorporada à classe das pessoas portadoras de deficiência. Sua amiga Semalícia, que também tem o problema, arremata: “se for assim também vou tirar a minha carteirinha”. Estranha. Se a senhora abordada tivesse a doença do pânico não iria falar para um estranho. Se falou, é provável que queria somente, falar. Falar para um estranho que tem um problema é pedir atenção. Recorda-se nesse momento da primeira candidata, que balbuciara sua aflição, assim como a segunda, que delatara sem rodeios o dia ruim, e tantas outros, usuários ou não do bendito bilhete único. Inconstância ficou realmente surpresa ao perceber que o estado de desordem a que os moradores da metrópole chegaram era muito mais profundo do que sua capacidade de percepção pudera captar. Angustia-se ao concluir que a parte do todo deveria estar em estágio bem mais degradado, uma vez que aquela “amostra” de pessoas eram de classes pouco mais favorecidas da cidade.
Em estado de tormento Inconstância volta às amigas e desabafa: “Acho que achei uma pauta. O estágio de patologia de nossa sociedade”. Para Inconstância, constatar o estado de perturbação das pessoas, mascarado por rostos de trabalhadores prontos para batalha lhe era demais. Mas as amigas focas resgatam o trabalho para seu foco jornalístico e desconversam. Inconstância finalmente nota que ao abordar as pessoas não era soluções que procurava, mas sim problemas. Malditos sejam os números exatos, e redondamente compreensíveis.
Escrito por Carol Lopes às 22h14
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Como dizia a professora de dança: equilíbrio só a morte.
Fazia muito tempo que não via minhas pequenas. O tempo existente entre a puberdade e o início de uma vida “adulta” (doloridamente consciente). O tempo suficiente para deixarmos de sermos as meninas que fomos para tornarmos as mulheres que somos. Uma vida praticamente.
Não, não era mais leve como na nossa infância. Já vinha não sendo há algum tempo. Mas belo como sempre. Há definitivamente algo de especial entre essas mocinhas de 1 metro e meio e eu.
Fiquei um pouco chocada com o equilíbrio que encontramos. Com a racionalidade com que passamos a vivenciar nossos novos desafios. Tata se surpreendeu que eu passasse para o mundo a imagem de uma mulher séria, responsável, fechada. E eu me surpreendi que isso não me incomodasse, ainda tentando justificar à minha amiga psicóloga que não me sentia mal, porque para os meus amigos de verdade eu estava aprendendo a ser, simplesmente, eu.
A conquista é verdadeira. Mas havia algo no ar. Algo que ficava nas entrelinhas dos nossos olhos ainda serelepes. Aos poucos fui entendendo. Era esse equilíbrio irritante que atingimos em nossas muitas introspecções pessoais. Equilibradas e frias. As três, no auge da nossa vida. Fiquei assustada. Mari pensativa. Tata apenas observava. Restava a ela ainda um suspiro de paixão nova. Daquelas que nascem do deslumbramento puro, que deixam a sensação de que agora a vida começa. Fiquei feliz pela minha pequena, que me surpreendera de pronto, não com a maturidade dos inacreditáveis 20 anos, mas com a racionalidade com que tudo era vivido.
Questionei para mim, entre mil histórias, que muito se assemelhavam à nossa maravilhosa adolescência juntas, se conquistando o equilíbrio eu não havia perdido o melhor de mim: a paixão; pela vida, pelo mundo, pelas pessoas, por mim. Tentei esquecer. Pensei que todo mundo deveria passar por esse questionamento em um dado momento da vida. Mas que se ninguém persistia nisso, era porque, com mais maturidade ainda, entendiam que fazia parte do processo. E isso poderia até ser benéfico. Essa sensação de equilíbrio.
Mas sou desconfiada. E duvidei mais uma vez. De mim e do mundo, que não desconfiava. Ainda sou capaz, de duvidar da qualidade do tão procurado equilíbrio.

Escrito por Carol Lopes às 22h51
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