Um tempo no tempo
Hoje eu estou em paz. A vida passa de vagar, porque meu tempo é lento. O mundo tem sua ordem, eu tenho meu caminho. O amor vem e vai, algumas lembranças doem, mas hoje eu sou um ser inteiro. Membros, articulações, coração, mente.
A vida não para e as pipas voam no céu poluído. As crianças permanecem sendo pequenos seres carentes de atenção e educação. Hoje o mundo não é menos injusto do que foi ontem e será amanhã, mas Lenine toca na vitrola e a vida não para não.
Ser o que se quer ser exige presença do hoje. Afinal, se é o que se pode ser independentemente das estações do ano. Eu sou só isso que sou. Sem mistérios. Trabalho diariamente, penso freneticamente e vezes ou outras paro o compasso do mundo para escrever pequenos delírios.
A vida segue. Para mim foram só os minutos que se passaram.
Escrito por Carol Lopes às 12h39
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Cotidiano
O cotidiano é realmente muito simples, como simples são as coisas complicadas. Tem data, origem, porque e por quem, mesmo que não saibamos preencher as lacunas das categorias predispostas pelos formulários da vida. De manhã eu te vejo e te amo. À tarde eu te sinto e te amo. À noite eu te ouço e te amo. A vida passa e eu te amo. Porque mais simples e cotidiano que a vida e o amor, só a fé.

Escrito por Carol Lopes às 21h07
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Casamento
Casamento
Poderia ser monotonia. Mas usualmente vivíamos do espontâneo. Sem hora para se ver, ser, ou se amar. Um dia disseram que a rotina era questão de tempo, e, que a paixão transformava-se em no máximo amor fraterno. Pois eu discordei. Olharam-me com aquele semblante velho, em que o tempo já destinou a história, e disseram com a boca cheia de putrefações verbais: é questão de tempo. Pois quem acha que o tempo está contra os amantes é porque não sabe amar. O tempo para mim é a possibilidade em vida de eu viver todo um amor que não se esgota. E é justamente o dia-a-dia, a convivência, a rotina, essas, palavras a ti malditas, que me elevam, diariamente. Desculpe queridos, se a vida de vocês é assistir à novela das 8 e esperar seus filhos chegarem em casa de uma balada louca e alucinante. Mas rotina de casamento para mim é quando eu posso ser mais eu e quando o a dois faz coisas que até Deus duvida. E estupefato Ele olha e chora, emocionado, porque é Deus, mas se enganou quando achou que a maçã mordida era danação. Porque um encontro entre dois que se encontram há uma eternidade é sonho em forma de realidade. E desculpem queridos, aqui há pouco ou há muito chegados, se vocês partilham um contrato de casamento achando que vivem uma vida a dois. Mas deixe-me com minhas certezas, que meu amor é amor-paixão e que a minha rotina matrimonial contém sexo, drogas e rock and roll.
Escrito por Carol Lopes às 10h27
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Samba que não virou música
(Sem nome)
Desgrenhada e insegura
Eu caminhava pela rua
Quando você me viu passar
Não tinha tamanho nem estrutura
De um amor deste tamanho acreditar
Ruas, bares, avenidas
Você assim, eu em mim
Atenta e afoita
Eu caminhava pela rua
Por ver meu amor passar
Presa em mim,
Um pássaro pronto para voar
Praças, parques e montanhas
Você e eu assim, em mim
Penteada e risonha
Caminhávamos pela rua
Quando nos viram passar
Segurei em sua mão, nos olhamos
- É a nossa vez, vamos
Sonhos, versos e aventuras
Eu em você, você em mim
Escrito por Carol Lopes às 10h26
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Tardes Alaranjadas
Os braços dormiam abertos, estatelados, enormes e despreocupados. As pernas davam a continuidade da leveza de sua estrutura, flutuante. A janela entreaberta recebendo a luminosidade do dia deixava a cena ainda mais excitante a meu olhar. O tom alaranjado da hora preferida deixava seus cabelos ainda mais avermelhados, só para me fazer atentar à simpatia das pintas do dorso e o brilho dos pêlos, arrepiados do primeiro frio do outono. Passava as tardes assim, a me seduzir. Mas o que fazer diante o amor, se era aquele sorriso-monalisa dos anjos-sexuados que me despertavam um tremor até então desconhecido? Eu queria que o mundo se acabasse nas curtas tardes em que a vida era um cotidiano besta e incandescente. Em que pernas se trançavam fervorosamente ao sabor do instinto e que faziam de mim um pulso involuntário de amor. Mas eu mantinha-me ali, estática, atrás da porta, suspirando, baixinho. Não que a minha tentação fosse proibida, imoral, ilícita. Não. Mas eu sabia que o que imobilizava meu impulso era o prazer de vê-lo assim, tão leve e feliz, solto em seu mundo onírico. Meu fascínio era ver como era simples a vida a um ser que sabia caber nos minutos. E como essa exatidão me perturbava! Queria mais era adentrar naquele íntimo e corar-lhe a face! Alguma voz sábia, porém, mantinha-me em estado contemplativo, lembrando dos mínimos trejeitos do ser amado. Era como se a beleza do mundo se resumisse em sua expressão. Como se a poesia do bater das asas de uma borboleta estivesse contido no movimento das suas mãos, assim como a sua multiplicidade de cores. As tardes perdidas a esmo me faziam crer que a minha felicidade estava ali, porque ali estava tudo que me interessava na vida.
Escrito por Carol Lopes às 10h25
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Chocolate com Pimenta
Com o tempo você aprende que as coisas geralmente estão onde não foram postas. E que não há uma explicação muito lógica para isso: nem segundo a ciência, nem pela fé e muito menos como conta a história; ainda que a da versão oculta. Aí você aprende a simplesmente olhar por outro ângulo, a aguçar mais o olfato do que o raciocínio.
Descobre que as regras só são realmente entendidas quando podem ser transgredidas, e que, surpreendemente, algumas regras são boas, se chamam costumes e trazem boas memórias, ainda que antropológicas. Percebe o valor das coisas não mensuráveis e sente inveja da espontaneidade, que, sem valor de mercado, não se encontra nas megastores.
Com o tempo muita coisa muda, principalmente você, que ainda sem tempo, descobre que só se é, quando é si mesmo. Aí você tira os sapatos, anda descalço, porque o chão tem perigos, mas também tem nuanças de textura e temperatura. E permite-se ficar em silêncio, mesmo que o mundo lhe queira um ser sociável, por natureza. Ou olhar o feio e sujo com mais atenção, porque de isso e de outro, todos temos um pouco.
É como reaprender as velhas coisas de um novo jeito. Aí você descobre que sempre há uma criança dentro de você, e volta a essa sensibilidade livre e inocente, muito apreciada, mas pouco incorporada.
E quando vê que todas as coisas são novas, você se permite prová-las sem restrição. E descobre que sempre há um novo no beijo de um amor de sempre, e que nem a nestlé faz um chocolate igual ao outro.
É como brincar de andar de bicicleta sem ter medo de cair. E se a lei do equilíbrio se fizer presente, é fazer da queda não (necessariamente) um aprendizado, mas um respeito às coisas que não podem/devem ser mudadas.
A liberdade é um querer fascinante, mas sim, há coisas que não devem ser mudadas. As flores devem sempre serem coloridas, a água limpa e as estações devem estar de acordo. Não porque assim queiramos, mas, simplesmente, porque o respeito à vida é condição de existência. Para todo o resto, as páginas em branco da história.
Escrito por Carol Lopes às 02h01
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Um ano, muitas vidas, todas as histórias
Que homem é esse que passou tantas vezes por mim e só uma foi fatal? Que homem é esse que me tira do sério, me descabela a alma, me faz mulher, e sua, e feminina, e sua, e somente sua, quando me faz mulher? Que me faz virar os olhos mais do que sorvete de macadâmia, que brinca com o dia-a-dia como se fosse o momento mais feliz da vida, e que brinca com minha brabeza, acalma meus medos, me tira a risada mais gostosa e sincera que eu já dei nessa vida? E tantas vezes, e repetidas, ele brinca comigo, e toca o barco do meu lado, e faz poesia o cotidiano monótono...Que homem é esse, meu Deus, que sem eu não existo, que sem sou só minha parte mais chata, menina, solitária? Que homem é esse que me toma de um jeito único, sábio, latente? Que faz meu desejo ser espontâneo, crescente? Que homem é esse, meu Deus, que pode fazer do dia-a-dia ainda mais gostoso? Que homem é esse que silencia quando meus ouvidos clamam a solidão das palavras, e me ouve quando eu grito por dentro, e que escuta quando eu digo em alto e bom som todas as miudezas do meu cotidiano? Que homem é esse, meu Deus? Que é amor em 100% do nosso tempo? Que homem é esse, que me descobre, me revela, me intima, me faz ser? Que homem é esse, meu Deus, que sempre que vai, sinto que fica, e, antes que eu me aflija, já está de volta? Que homem é esse, meu Deus, que colocaste no meu caminho, sem medos ou empecilhos, dores ou limitações, assim, tão grande e intenso...e, pronto para me amar? Meu Deus, não sei dizer que homem é esse, tão meu, tão dele, tão seu, tão da vida, que sabe de tudo de mim, sem que ninguém tenha mencionado uma só palavra a meu respeito. Não sei que homem pudera ser assim, pra mim, tão certinho, tão encaixadinho, tão perfeitinho para meu eu. Não sei de nada, e vivo despreocupada por saber, que a única coisa que sei, é que ele acorda todas as manhãs do meu lado e cheira o meu mais doce perfume.
Escrito por Carol Lopes às 18h13
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Ode à cachaça
Caninha barata que embriaga o meu amor, não alivia a minha dor, mas atiça o meu ardor, me larga ou me entorpece, mas pare de brincar de meias-ilusões. Eludibriadora! Traiçoeira! Rancorosa! De você eu quero distância de um canudinho fino e colorido. Você, que sempre presente nas grandes desgraças e felicidades humanas, não pode saber a inveja que me causa. Consumou-a para provar-lhe que sou mais eu sem você, mas é você que me prova que liberdade na boca de quem não tem glândulas sensitivas é bala no pacote. Marvada, eu ainda me vingo de você. Eu ainda lhe roubo o meu amor, que pensas que é seu.
Escrito por Carol Lopes às 21h54
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Caetano, obrigada pela companhia. Em noites em que o tempo é o da distância, os amigos é só saudade, minha menina não aparece, o trabalho é ganha-pão e a cachaça não seduz, você tem feito milagres.

Escrito por Carol Lopes às 21h17
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Não mais que um grão de areia
Um grão de areia, não mais que isso, tentando ser deserto. O silencio da madrugada contente, que sabe a hora de se pôr e a de se retirar. Não faz drama nem perde a hora, chega sempre, pontual. Não hesita porque entende o fluxo da vida, e entende que ser grão do pó criador é ser essência. Caminha com o vento que o leva, não faz resistência. Não precisa, a natureza é sábia e honesta. Se o dissolvem num mar d’água, não morre, se transforma. É sábio e belo, porque indissolúvel e soberano. Não precisa se dobrar mais que sua natureza e recebe como prêmio à sua obediência igual versatilidade da grande criação. Caminha suas lutas solitariamente unido de outros grãos indissolúveis, soberanos e solitários. Nem por isso morre, de tédio, desânimo ou depressão. Para a vida latente não espaço para tão mórbido sentimento. Ser é um estado de bênção.

Escrito por Carol Lopes às 22h58
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Versões do Poder. Minimalistamente.
Pode.
Pode.
Pode.
Pode.
Pó.
Dê.
Podre.
Escrito por Carol Lopes às 23h16
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Sorriso Monalisa
Nasci pelo meio. Que me adianta a sensibilidade dos artistas se não toco, não pinto, não componho? Sensibilidade não manifesta é angústia contida, minha matéria viva. Vivo a me emocionar descompassadamente. Chorar pelos cantos de óculos escuros. Gritar silenciosamente minhas pulsões. Sorrir Monalisa.
Escrito por Carol Lopes às 23h07
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No país do futebol não sou torcedora
No país do futebol não acompanho, não torço, não vibro, não comemoro, não choro. Sou uma descamisada do esporte nacional. Lágrimas só na Copa de 2002. Não pelos 11 jogadores, mas, essencialmente, pela camisa verde-e-amarela.
Pela costumeira posição derradeira em índices de qualidade e vitórias no quesito desgraça nacional;
Pelo filho colonizado que ainda não rompeu o cordão umbilical;
Pela cultura primária, que, ainda que linda, é o máximo que se consegue atingir com uma parca alimentação educacional;
Pela dificuldade de incorporar que nossa identidade não é ausência, mas presença de todas;
Pela elegância londrina dos ternos fechados no calor equatorial;
Pela grande festa negra que reserva hoje alas para seus senhores brancos;
Pelo solene aperto de mãos do operário acidentado com o mais azul dos sangues europeus, que lhes confere o direito de culpar um filho nosso de assassinato pelo fato de ser da cor da mestiçagem.

Escrito por Carol Lopes às 10h23
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Dia Internacional da Mulher, Hoje é dia de Maria!
Cena 1
Empregador entrevista a jovem recém-formada candidata à vaga de jornalista.
- Posso te fazer uma pergunta indiscreta?
- Depende, responde firme a jovem de 22 anos ao renomado jornalista.
Cena 2
Dia 8 de março, av. Paulista, por volta de 8 mil mulheres se reúnem no Dia Internacional da Mulher. Elas comemoram o direito da escolha, o direito da palavra, o direito do desejo, o direito de ser. Elas reivindicam o direito da igualdade, do reconhecimento, do respeito. Um grupo de neandertals posta-se na sacada de um prédio com vista para a passeata com pôsteres de “gostosas” da playboy. Elas cantam em coro: “mulher não é mercadoria”.
As cenas são (hoje e ainda, nessa ordem) corriqueiras, mas representativas. Ilustram o porque da data. Mulheres em Movimento Mudam o Mundo é o nome da organização que puxa a marcha. Não à toa. São Marias, mulheres que riem quando devem chorar, e que movimentam a história (e os valores), do gênero preterido.
Eles ironizam dizendo que ter um dia comemorativo exclusivo para elas põe por terra a igualdade conclamada. Eles confundem igualdade genética com igualdade de possibilidades.
Eles riem da conquista do acesso da mulher ao mercado de trabalho que lhes tirou o peso do sustento da casa; elas comemoram a possibilidade da escolha, que é, no limite, a liberdade plena.
Eles dizem que a data não passa de mera concordata comercial. Eles não entendem o valor do símbolo.
Eles a reduzem a objeto de satisfação de suas necessidades sexuais, elas conquistam a liderança da casa, do trabalho, do seio social, e, de quebra, ensinam que ficar de quatro é uma dentre as inúmeras posições do amor.
A todas as mulheres que fizeram jus ao nome, meu muito obrigado.
Sem vocês nenhuma dessas linhas teria sido tecida.
Carolina Lopes
09/03/06
Escrito por Carol Lopes às 08h58
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Sinto, logo existo
É março e o meu último post é de janeiro. E só hoje quero escrever. Porque estou triste. Bom, isso quer dizer que tive quase dois meses de felicidade interrupta. Mal, isso quer dizer que sou movida pela dor. Ele deve estar certo. Meu blog é um estimulo ao suicídio. Não queridos, não façam isso. Tenho sempre um colo guardado para os esquisitos como eu. A gente se consola na esquisitice e a vida volta a valer a pena. Flores nascem do asfalto. Branca é capaz de se preencher com meu amor. Eu sou capaz de esquecer as mágoas para que ela não se aborreça com minhas dores. A gente se ama e a vida ganha sentido. Sinto, logo existo.
Escrito por Carol Lopes às 00h28
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