Sorrir Monalisa II

Vivia sorrindo monalisa. E achavam-na simpática por isso. Sorria de escárnio, de ironia, de sarro. Nunca na vida sorrira de felicidade, mas quem se importa? Ela sorria! E como os sorrisos abrem portas...mesmo os amarelos. A forma mais inteligente de concordar discordando. Ou alguém discorda de um sorriso bem dado? Ah seres humanos, tão carentes de afeto. Dou-lhe um sorrisinho distraído e já abre-me as pernas?

Feliz é de quem nasce com a boca larga. É só puxar um tantim assim o canto e está tudo resolvido. Diria que à bordo de um sorriso não há mares não desbraváveis. Perceba que és escravo do meu sorriso. Sem ele não tens coragem de dar um passo adiante. E eu sorrio, porque somos coniventes neste jogo de mentiras, onde tu buscas no meu gesto tuas carências e eu busco na minha artimanha a minha tirania. E somos todos felizes, porque este é o código de nossa raça.



Escrito por Carol Lopes às 01h03
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Um ninho para um passarinho 

 

Você ainda não veio. Nem matéria é. Mas já tem a forma de um amor-maior. Quando queríamos fugir, da cidade, da vida, da mediocridade, você. Quando pensamos em ir além, você. Largar tudo pelo nada, você. Você já era tudo quando não era nada. O violão embalava a trilha sonora dos sonhos que vislumbrávamos para você. Seu pai sempre tinha uma linda e nova canção a nos inspirar, eu, um caminho a intuir. E juntos sonhávamos com tua chegada. Sabíamos que tudo mudaria a partir dela. Mas já era o amor-maior de um grande amor. E no vir, criávamos o teu espaço no mundo, ainda que soubéssemos que só você seria capaz de selá-lo. Nosso papel era explorar. Sofreríamos, mas o respeitaríamos, sempre. Você ainda nem veio, mas já o respeitamos, assim como a todos os seres de bom coração. Seu pai toca “voa azulão” e eu devo terminar minha monografia para encerrar o ciclo da minha vida que antevê a sua. A casa já esta completa, só falta você.

 



Escrito por Carol Lopes às 02h00
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Um tempo no tempo

 

Hoje eu estou em paz. A vida passa de vagar, porque meu tempo é lento. O mundo tem sua ordem, eu tenho meu caminho. O amor vem e vai, algumas lembranças doem, mas hoje eu sou um ser inteiro. Membros, articulações, coração, mente.

 

A vida não para e as pipas voam no céu poluído. As crianças permanecem sendo pequenos seres carentes de atenção e educação. Hoje o mundo não é menos injusto do que foi ontem e será amanhã, mas Lenine toca na vitrola e a vida não para não.

 

Ser o que se quer ser exige presença do hoje. Afinal, se é o que se pode ser independentemente das estações do ano. Eu sou só isso que sou. Sem mistérios. Trabalho diariamente, penso freneticamente e vezes ou outras paro o compasso do mundo para escrever pequenos delírios.

 

A vida segue. Para mim foram só os minutos que se passaram.



Escrito por Carol Lopes às 12h39
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Cotidiano

 

O cotidiano é realmente muito simples, como simples são as coisas complicadas. Tem data, origem, porque e por quem, mesmo que não saibamos preencher as lacunas das categorias predispostas pelos formulários da vida. De manhã eu te vejo e te amo. À tarde eu te sinto e te amo. À noite eu te ouço e te amo. A vida passa e eu te amo. Porque mais simples e cotidiano que a vida e o amor, só a fé.

 



Escrito por Carol Lopes às 21h07
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Casamento

 

Casamento

 

Poderia ser monotonia. Mas usualmente vivíamos do espontâneo. Sem hora para se ver, ser, ou se amar. Um dia disseram que a rotina era questão de tempo, e, que a paixão transformava-se em no máximo amor fraterno. Pois eu discordei. Olharam-me com aquele semblante velho, em que o tempo já destinou a história, e disseram com a boca cheia de putrefações verbais: é questão de tempo. Pois quem acha que o tempo está contra os amantes é porque não sabe amar. O tempo para mim é a possibilidade em vida de eu viver todo um amor que não se esgota. E é justamente o dia-a-dia, a convivência, a rotina, essas, palavras a ti malditas, que me elevam, diariamente. Desculpe queridos, se a vida de vocês é assistir à novela das 8 e esperar seus filhos chegarem em casa de uma balada louca e alucinante. Mas rotina de casamento para mim é quando eu posso ser mais eu e quando o a dois faz coisas que até Deus duvida. E estupefato Ele olha e chora, emocionado, porque é Deus, mas se enganou quando achou que a maçã mordida era danação. Porque um encontro entre dois que se encontram há uma eternidade é sonho em forma de realidade. E desculpem queridos, aqui há pouco ou há muito chegados, se vocês partilham um contrato de casamento achando que vivem uma vida a dois. Mas deixe-me com minhas certezas, que meu amor é amor-paixão e que a minha rotina matrimonial contém sexo, drogas e rock and roll.



Escrito por Carol Lopes às 10h27
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Samba que não virou música

(Sem nome)

Desgrenhada e insegura

Eu caminhava pela rua

Quando você me viu passar

Não tinha tamanho nem estrutura

De um amor deste tamanho acreditar

Ruas, bares, avenidas

Você assim, eu em mim

 

Atenta e afoita

Eu caminhava pela rua

Por ver meu amor passar

Presa em mim,

Um pássaro pronto para voar

Praças, parques e montanhas

Você e eu assim, em mim

 

Penteada e risonha

Caminhávamos pela rua

Quando nos viram passar

Segurei em sua mão, nos olhamos

- É a nossa vez, vamos

Sonhos, versos e aventuras

Eu em você, você em mim

 



Escrito por Carol Lopes às 10h26
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Tardes Alaranjadas

Os braços dormiam abertos, estatelados, enormes e despreocupados. As pernas davam a continuidade da leveza de sua estrutura, flutuante. A janela entreaberta recebendo a luminosidade do dia deixava a cena ainda mais excitante a meu olhar. O tom alaranjado da hora preferida deixava seus cabelos ainda mais avermelhados, só para me fazer atentar à simpatia das pintas do dorso e o brilho dos pêlos, arrepiados do primeiro frio do outono. Passava as tardes assim, a me seduzir. Mas o que fazer diante o amor, se era aquele sorriso-monalisa dos anjos-sexuados que me despertavam um tremor até então desconhecido? Eu queria que o mundo se acabasse nas curtas tardes em que a vida era um cotidiano besta e incandescente. Em que pernas se trançavam fervorosamente ao sabor do instinto e que faziam de mim um pulso involuntário de amor. Mas eu mantinha-me ali, estática, atrás da porta, suspirando, baixinho. Não que a minha tentação fosse proibida, imoral, ilícita. Não. Mas eu sabia que o que imobilizava meu impulso era o prazer de vê-lo assim, tão leve e feliz, solto em seu mundo onírico. Meu fascínio era ver como era simples a vida a um ser que sabia caber nos minutos. E como essa exatidão me perturbava! Queria mais era adentrar naquele íntimo e corar-lhe a face! Alguma voz sábia, porém, mantinha-me em estado contemplativo, lembrando dos mínimos trejeitos do ser amado. Era como se a beleza do mundo se resumisse em sua expressão. Como se a poesia do bater das asas de uma borboleta estivesse contido no movimento das suas mãos, assim como a sua multiplicidade de cores. As tardes perdidas a esmo me faziam crer que a minha felicidade estava ali, porque ali estava tudo que me interessava na vida.

 

 



Escrito por Carol Lopes às 10h25
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Chocolate com Pimenta

 

Com o tempo você aprende que as coisas geralmente estão onde não foram postas. E que não há uma explicação muito lógica para isso: nem segundo a ciência, nem pela fé e muito menos como conta a história; ainda que a da versão oculta. Aí você aprende a simplesmente olhar por outro ângulo, a aguçar mais o olfato do que o raciocínio.

Descobre que as regras só são realmente entendidas quando podem ser transgredidas, e que, surpreendemente, algumas regras são boas, se chamam costumes e trazem boas memórias, ainda que antropológicas. Percebe o valor das coisas não mensuráveis e sente inveja da espontaneidade, que, sem valor de mercado, não se encontra nas megastores.

 

Com o tempo muita coisa muda, principalmente você, que ainda sem tempo, descobre que só se é, quando é si mesmo. Aí você tira os sapatos, anda descalço, porque o chão tem perigos, mas também tem nuanças de textura e temperatura. E permite-se ficar em silêncio, mesmo que o mundo lhe queira um ser sociável, por natureza. Ou olhar o feio e sujo com mais atenção, porque de isso e de outro, todos temos um pouco.

 

É como reaprender as velhas coisas de um novo jeito. Aí você descobre que sempre há uma criança dentro de você, e volta a essa sensibilidade livre e inocente, muito apreciada, mas pouco incorporada.

 

E quando vê que todas as coisas são novas, você se permite prová-las sem restrição. E descobre que sempre há um novo no beijo de um amor de sempre, e que nem a nestlé faz um chocolate igual ao outro.

 

É como brincar de andar de bicicleta sem ter medo de cair. E se a lei do equilíbrio se fizer presente, é fazer da queda não (necessariamente) um aprendizado, mas um respeito às coisas que não podem/devem ser mudadas.

 

A liberdade é um querer fascinante, mas sim, há coisas que não devem ser mudadas. As flores devem sempre serem coloridas, a água limpa e as estações devem estar de acordo. Não porque assim queiramos, mas, simplesmente, porque o respeito à vida é condição de existência. Para todo o resto, as páginas em branco da história.

 



Escrito por Carol Lopes às 02h01
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Um ano, muitas vidas, todas as histórias

 

 

Que homem é esse que passou tantas vezes por mim e só uma foi fatal? Que homem é esse que me tira do sério, me descabela a alma, me faz mulher, e sua, e feminina, e sua, e somente sua, quando me faz mulher? Que me faz virar os olhos mais do que sorvete de macadâmia, que brinca com o dia-a-dia como se fosse o momento mais feliz da vida, e que brinca com minha brabeza, acalma meus medos, me tira a risada mais gostosa e sincera que eu já dei nessa vida? E tantas vezes, e repetidas, ele brinca comigo, e toca o barco do meu lado, e faz poesia o cotidiano monótono...Que homem é esse, meu Deus, que sem eu não existo, que sem sou só minha parte mais chata, menina, solitária? Que homem é esse que me toma de um jeito único, sábio, latente? Que faz meu desejo ser espontâneo, crescente? Que homem é esse, meu Deus, que pode fazer do dia-a-dia ainda mais gostoso? Que homem é esse que silencia quando meus ouvidos clamam a solidão das palavras, e me ouve quando eu grito por dentro, e que escuta quando eu digo em alto e bom som todas as miudezas do meu cotidiano? Que homem é esse, meu Deus? Que é amor em 100% do nosso tempo? Que homem é esse, que me descobre, me revela, me intima, me faz ser? Que homem é esse, meu Deus, que sempre que vai, sinto que fica, e, antes que eu me aflija, já está de volta? Que homem é esse, meu Deus, que colocaste no meu caminho, sem medos ou empecilhos, dores ou limitações, assim, tão grande e intenso...e, pronto para me amar? Meu Deus, não sei dizer que homem é esse, tão meu, tão dele, tão seu, tão da vida, que sabe de tudo de mim, sem que ninguém tenha mencionado uma só palavra a meu respeito. Não sei que homem pudera ser assim, pra mim, tão certinho, tão encaixadinho, tão perfeitinho para meu eu. Não sei de nada, e vivo despreocupada por saber, que a única coisa que sei, é que ele acorda todas as manhãs do meu lado e cheira o meu mais doce perfume.



Escrito por Carol Lopes às 18h13
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Ode à cachaça

 

 

Caninha barata que embriaga o meu amor, não alivia a minha dor, mas atiça o meu ardor, me larga ou me entorpece, mas pare de brincar de meias-ilusões. Eludibriadora! Traiçoeira! Rancorosa! De você eu quero distância de um canudinho fino e colorido. Você, que sempre presente nas grandes desgraças e felicidades humanas, não pode saber a inveja que me causa. Consumou-a para provar-lhe que sou mais eu sem você, mas é você que me prova que liberdade na boca de quem não tem glândulas sensitivas é bala no pacote. Marvada, eu ainda me vingo de você. Eu ainda lhe roubo o meu amor, que pensas que é seu.

 

 



Escrito por Carol Lopes às 21h54
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Caetano, obrigada pela companhia. Em noites em que o tempo é o da distância, os amigos é só saudade, minha menina não aparece, o trabalho é ganha-pão e a cachaça não seduz, você tem feito milagres.

 

 

 

 



Escrito por Carol Lopes às 21h17
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Não mais que um grão de areia

 

Um grão de areia, não mais que isso, tentando ser deserto. O silencio da madrugada contente, que sabe a hora de se pôr e a de se retirar. Não faz drama nem perde a hora, chega sempre, pontual. Não hesita porque entende o fluxo da vida, e entende que ser grão do pó criador é ser essência. Caminha com o vento que o leva, não faz resistência. Não precisa, a natureza é sábia e honesta. Se o dissolvem num mar d’água, não morre, se transforma. É sábio e belo, porque indissolúvel e soberano. Não precisa se dobrar mais que sua natureza e recebe como prêmio à sua obediência igual versatilidade da grande criação. Caminha suas lutas solitariamente unido de outros grãos indissolúveis, soberanos e solitários.  Nem por isso morre, de tédio, desânimo ou depressão. Para a vida latente não espaço para tão mórbido sentimento. Ser é um estado de bênção.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Carol Lopes às 22h58
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Versões do Poder. Minimalistamente.

 

Pode.

Pode.

Pode.

Pode.

 

Pó.

 

Dê.

 

Podre.

 



Escrito por Carol Lopes às 23h16
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Sorriso Monalisa

 

Nasci pelo meio. Que me adianta a sensibilidade dos artistas se não toco, não pinto, não componho? Sensibilidade não manifesta é angústia contida, minha matéria viva. Vivo a me emocionar descompassadamente. Chorar pelos cantos de óculos escuros. Gritar silenciosamente minhas pulsões. Sorrir Monalisa.



Escrito por Carol Lopes às 23h07
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No país do futebol não sou torcedora

 

 

No país do futebol não acompanho, não torço, não vibro, não comemoro, não choro. Sou uma descamisada do esporte nacional. Lágrimas só na Copa de 2002. Não pelos 11 jogadores, mas, essencialmente, pela camisa verde-e-amarela.

 

Pela costumeira posição derradeira em índices de qualidade e vitórias no quesito desgraça nacional;

 

Pelo filho colonizado que ainda não rompeu o cordão umbilical;

 

Pela cultura primária, que, ainda que linda, é o máximo que se consegue  atingir com uma parca alimentação educacional;

 

Pela dificuldade de incorporar que nossa identidade não é ausência, mas presença de todas;

 

Pela elegância londrina dos ternos fechados no calor equatorial;

 

Pela grande festa negra que reserva hoje alas para seus senhores brancos;


Pelo solene aperto de mãos do operário acidentado com o mais azul dos sangues europeus, que lhes confere o direito de culpar um filho nosso de assassinato pelo fato de ser da cor da mestiçagem.

 



Escrito por Carol Lopes às 10h23
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